Falar de peixe também se faz necessário

Desde que a americana Beyond Meat abriu IPO — no começo de maio — o hype em torno das FoodTechs e da corrida pela próxima carne feita em laboratório aconteceu numa crescente sem precedentes. Tyson Foods lançou uma linha que faz um blend da proteína animal com a vegetal. A Marfrig — gigante brasileira — anunciou que “é a única capaz de produzir o hambúguer vegetal com o melhor sabor animal". A Fazenda Futuro — que se propõe a nos levar ao futuro "free-boi"—, além de receber aporte da Monashees, também já retrucou e deu à Marfrig uma resposta à altura.

Assim, a "carninha", o "franguinho" e o "porquinho" começam a receber maior compaixão e atenção de uma cultura alimentar secular pautada em hábitos um tanto quanto obsoletos se considerarmos avanços tecnológicos e crescimento populacional.

Mas e o peixinho?

Esse parece estar ficando para trás no debate. "Rico em ômega-3, excelente para o desenvolvimento das nossas crianças, fonte de bom colesterol, o mais difícil de ser abandonado por paladares exigentes". Aliás, "peixe nem sofre tanto assim para ser pescado". No mais, “o impacto da pesca não agride tanto o meio ambiente quanto o desmatamento para a criação do gado”.

Será?!

Segundo a FAO, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, 90% das zonas pesqueiras do mundo já foram totalmente ou estão sendo super exploradas. Se continuarmos nesse ritmo, até 2048 teremos um colapso marinho—que atinge diretamente a biodiversidade planetária.

Tirando números, podemos olhar por outras perspectivas.

A da saudabilidade por exemplo. Citemos, rapidamente, os microplásticos. Podem passar desapercebidos aos olhos daqueles que habitam longe das costas, ou dos que têm pouco contato com animais marinhos vivos. Contudo, é um problema sério para pesquisadores e morados das regiões costeiras. O artigo acima referenciado detalha melhor a situação dos animais que habitam as zonas mais profundas dos oceanos: a maioria possui algum tipo de microplástico em seu organismo.

Agora, pense na alta ingestão de espécies alimentadas de tais resíduos. Usemos as grávidas como exemplo. Comumente a comunidade médica instrui gestantes a controlarem a ingestão de determinadas espécies por possuírem altas quantidades de mercúrio, e também pelo fato de essa substância ser altamente perigosa, especialmente, para fetos e crianças. Te pergunto: vale alimentar sua família com o tal ômega-3 do reino animal sendo que temos opções tão eficazes quanto (e por vezes ainda mais completas) no reino vegetal? Por mais que a população de maior risco seja fetos e crianças, se há chance de contaminação, porque devemos insistir na crença de que só esses alimentos são tão completos para o desenvolvimento saudável do cérebro humano?

Ainda, se à essa condição adicionarmos uma pitada do impacto ambiental causado por: pescas predatórias, fazendas de peixes, e demanda crescente desse tipo de alimento, teremos mares bem turvos para desbravarmos. Como falou Michael Selden, fundador da Finless Foods, ao site americano The Atlantic: "vivemos à base do imperialismo ambiental. A forma como escolhemos nosso alimento segue a linha do: pegamos o que queremos. Se você vive em São Francisco e come o atum bluefin, ele provavelmente terá vindo das Filipinas. Enquanto isso, nas Filipinas, navios pesqueiros destroem ecossistemas inteiros em nome da pesca predatória para nos alimentar".

Você sabia que aproximadamente 50% dos resíduos plásticos encontrados nos oceanos são descartados por navios pesqueiros? E que a pesca do atum comercializado no Japão pode não ser local e nem respeitar as cotas e regras impostas por legislação? Além do mais, existe o que em inglês denominamos “bycatch”. Ou seja, na intenção de pescar um peixe como o bacalhau, a rede captura outras espécies marítimas não tão interessantes do ponto de vista comercial (como as tartarugas, aves marinhas, corais, entre outros), que são logo descartadas, causando um desequilíbrio enorme e instantâneo nos ecossistemas. Sobre tudo, ainda temos as fazendas de peixes: ora tidas como a solução, ora tidas como o problema (sobre essas podemos escrever um novo artigo, há muito o que se falar e entender).

Como o navio pesqueiro está tardando a atracar nos meios de comunicação, e para que não deixemos o peixe de fora dessa discussão, selecionei algumas referências que podem ajudar nessa nova jornada de águas profundas, redes vazias, e marés altas.

Sea Food Watch por exemplo, é uma organização não governamental que produziu um guia pautado nas espécies ideais (mais sustentáveis) para serem consumidas em diferentes regiões dos Estados Unidos—e também alerta para as espécies que não devem ser consumidas. Já a Finless Foods está na busca da substituição do peixe pelo peixe criado a partir da célula animal. Enquanto isso, marcas como a Good Catch Foods e a Loma Linda já vendem suas versões veganas de atum enlatado — ricas em proteínas e omêgas como os encontrados no próprio animal. Andando pela linha editorial e criativa temos documentários como Rotten e Artisfishal, que se propõem a trazer mais reflexão para a temática, bem como livros que oferecem ótimo embasamento para entusiastas e interessados na questão da pesca em tempos modernos: Four Fish: The Future of the Last Wild Food e The End of The Line: How Overfishing is Changing the World and What We Eat.

Afinal, a saúde dos nossos oceanos é tão importante quanto a saúde das nossas terras. E o desequilíbrio desse bioma é uma ameaça aos demais biomas terrestres.

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