Bioma & Food Ventures Hub

Era final de ano quando recebi uma simpática mensagem do Augusto Terra. Engenheiro de alimentos e sócio-fundador do Food Ventures, é uma das figuras trabalhando para expandir o conhecimento, impulsionar empreendedorismo a partir de pesquisa e inovação, e então aumentar investimento no ecossistema alimentar brasileiro — ou, como ele mesmo fala, na “vertical de food” no Brasil.

Depois de um agradável papo numa tarde chuvosa de dezembro, entendemos que uma parceria poderia nascer a partir do trabalho de construção de comunidades que a Food Ventures já vinha fazendo online, e o Bioma se propunha a fazer offline.

Contudo, entre trocas e conversas, e diante da situação que nos foi imposta frente à pandemia de COVID-19, conversamos e decidimos reservar um pouquinho dos nossos tempos para um trabalho colaborativo.

Enquanto todos estamos em modo online, entendemos que unir forças para elevar o conhecimento sobre tão complexo ecossistema poderia ser de grande valia para todos nós que pensamos, dia e noite, como regenerar o Sistema Alimentar.

Começamos com um papo informal que virou um mini Q&A, onde pedi para o Augusto nos contar um pouco mais sobre a atuação da FV e também das especificidades desse mercado.

Fica aqui uma introdução às nossas futuras conversas — em breve traremos um conteúdo mais “olho no olho” (mesmo que à distância), em formato de vídeo — com curadoria de ambas as partes.

Aproveitem!


Augusto_

A FoodVentures começou em 2017, nosso objetivo principal era o desenvolvimento de um fundo de investimento focado exclusivamente no mercado de alimentos e constituído por “pessoas do mercado de alimentos”. Executivos, P&D, pesquisadores, professores, investidores, empreendedores e empresários — pessoas que pensam diferente mas compartilham as oportunidades de fomentar o mercado.

Juliana_

Quais foram os maiores desafios encontrados na hora de concretizar esse fundo?

O que faltava para os investidores darem esse passo adiante?

Augusto_

No primeiro momento foi falta de informação. Mercado de inovação de alimentos estava muito espalhado em outras temáticas como aplicativos e agronegócio.

Por esse motivo começamos uma equipe de scouting e conteúdo.

No segundo momento foi entender o que seriam as startups de alimentos (tidas como foodtechs). Os investidores não entendiam o que tinha de digital nelas, e poucas alternativas no mercado traziam tecnologia dentro do segmento de alimentos.

Quando competiam com outras startups digitais, as foodtechs perdiam relevância.

Juliana_

De 2017 para cá o mercado de alimentos e bebidas começou a tomar nova forma aqui no Brasil, e investimentos começaram a acontecer de forma até mais agressiva.

Você atribui isso à maior conscientização da população de que comida, saúde e meio-ambiente formam uma tríade indissociável em tempos de mudanças climáticas e maior conscientização social? Você diria que se a Food Ventures tivesse começado no ano presente teria sido mais fácil se comunicar com o mercado de capitais?

Augusto_

Acho que os investimentos no Brasil são consequência de investimentos em mercados mais maduros como EUA e Europa. Ainda investimos muito pouco em tecnologias na cadeia de alimentos.

Os maiores casos de foodtechs no Brasil são os aplicativos de delivery. Só o iFood representa 500 milhões de dólares do capital nacional para foodtech. Por isso o foco da FV ainda é investimento em tecnologias para mudar a cadeia de forma mais técnica do que digital (não excluindo digital).

Ainda estamos construindo um bom caminho dentro do ecossistema. Acredito nesse aprendizado ao longo do caminho. Acertamos e erramos muito, então começar hoje não nos daria essa bagagem.

Augusto_

Os desafios da cadeia são tão grandes quanto a sua dimensão. Olhamos como parte da cadeia de alimentos tudo, da porteira da fazenda até o consumidor. Isso envolve, por exemplo, a embalagem, o transporte, a legislação, a cultura e diversas outras esferas.

Nos últimos 3 anos identificamos diversas dificuldades de encontrar uma temática única para as foodtechs. Na maioria dos casos, elas eram vistas como aplicativos ou softwares que estavam relacionados a comida.

Juliana_

Como você define uma foodtech, de forma breve, para um novato no assunto?

Augusto_

O uso do termo startup, importado do ambiente de inovação digital, confundiu a cabeça de empreendedores e investidores que não enxergavam a escala e o crescimento de empresas dentro da cadeia de alimentos. Foodtech é a empresa mudando status quo da indústria. Elas podem ser digitais ou tecnológicas, ou ambas.

Juliana_

Qual era a percepção desse grupo de profissionais sobre a criação de um fundo exclusivo para alimentos e bebidas? Quais eram as maiores expectativas e as maiores críticas? Você acredita que já tenha ocorrido uma mudança na maneira como essas mesmas pessoas enxergam o mercado hoje?

Augusto_

A percepção é boa. Como em todos os mercados, seus participantes ficam animados quando alguém foca apenas neles. Ainda é muito cedo para avaliar se vamos ajudar. Mas acredito que foco é muito bom para criação de ecossistemas.

As maiores críticas vieram de investidores que são mais pulverizados. Investir em um segmento apenas é mais arriscado.

Por esse motivo focamos muito na distribuição e criação de conteúdo: para ajudar a disseminar a ideia de que a evolução da cadeia de alimentos vai muito além de bits and bytes.

Juliana_

Outro dia ao telefone falamos sobre o outsourcing de informação — que nós buscamos muito conteúdo de fora (do país) quando queremos transmitir conhecimento crítico sobre o cenário de alimentos e bebidas. Qual, para você, é o maior termômetro que indique em que ponto estamos nesse trajeto evolutivo? Qual a fome de conhecimento do brasileiro quando falamos de inovação e mudanças na forma de alimentar o mundo?

Augusto_

O Brasil ainda é muito fraco em informações, não apenas no setor de alimentos. Ainda estamos bem atrasados com relação a compilação de dados. Temos muitos avanços mas muitas vezes não são senso comum como em outros países.

Boa parte da indústria (market share) é dominado por empresas multinacionais e essa pesquisa e desenvolvimento da inovação não acontece dentro do Brasil. Mas isso tem mudado. Tenho escutado mais empresas procurando novas tecnologias no Brasil. Isso vai ajudar muito.

O público não tem muito interesse em coisas muito específicas, mas é famoso por absorver informação online e aceitar novidades.

Augusto_

Encontramos em 2019 uma forma de tornar o nosso papel mais claro e não só buscar fomentar o mercado com capital mas também com informação, conteúdo e mão na massa. Em 2020 começamos um processo de acelerar empresas com desenvolvimento de tecnologia através de acesso a institutos de pesquisa. Dessa forma conseguimos apoiar para que as tecnologias e a biodiversidade brasileira seja referência mundial na evolução da produção de alimentos e bebidas.

Juliana_

Você pode nos contar um pouco mais de algum projeto específico para que as pessoas entendam o que significa unir tecnologia e pesquisa no desenvolvimento de novos produtos?

Augusto_

Fazenda do futuro: produto novo com um marketing que explica para o consumidor que estão em constante evolução (1.0, 2.0. etc). Essa comunicação fácil abre muitas portas para que o consumidor entenda a evolução do novo.

Juliana_

Qual empresa ou produto você acha que está entregando um trabalho realmente substancial e ajudando a transformar esse cenário de inovação alimentar no Brasil?

Augusto_

BRF. Desde que começamos é a empresa que mais investe em um ecossistema. Já erraram e acertaram em diversas iniciativas, mas souberam aprender e evoluir. Lançaram um Hub esse ano e imagino que trarão mais evolução para o setor — inclusive no segmento plant-based, um dos que mais se transformou nós últimos anos.

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