Os hambúrgueres plant-based na cena fast food -- Parte 1 de 2

Por Juliana Bechara Parente em colaboração com Food Ventures

 

Os hambúrgueres plant-based na cena fast-food

Será que eles são menos “junk”?


No dia 1 de maio de 2020, quando papeamos com Daniele e Fabio Zukerman, a conversa acabou sendo enfatizada pela crescente demanda por produtos e serviços que façam o indivíduo se sentir bem não só consigo, mas com o meio-ambiente, com os animais, com as comunidades locais e, sobretudo, com o planeta de forma geral. Sem deixar, contudo, a memória afetiva de lado. A pizza de domingo, o hambúrguer entre amigos, o tostex com queijo bem derretido.

Essa é a razão pela qual estamos aqui, colocando palavras no papel.

Como esse foi um caminho trilhado pelo próprio Fábio que hoje, além de vestir a marca Plant Made como sua alma, investe em tecnologia e inovação para levar meatless burgers, pizzas com todo catupiry vegano a que se tem direito e laticínios vegetais (ou não-laticínios como comentou a Dani) para todo o Brasil, entendemos que é um caminho sem volta.

Segundo artigo da publicação inglesa The Guardian, a estimativa é de que até 2040, 60% da proteína animal seja substituída por alguma alternativa a base de plantas ou de carne cultivada. Tudo isso se dá em um cenário transitório que quebrou o paradigma de que ser vegano é chato e se restringe ao “verde”.

Parece que a era do “se você é vegano você come o quê?!” acabou.

O mercado da saudabilidade e dos alimentos plant-based se mostra cada vez mais sólido e em linha com as preocupações contemporâneas — isso sem mencionar a pandemia que muitos cientistas atribuem ao consumo humano de animais silvestres, e preveem recorrência caso não repensemos nossos hábitos e relação com a natureza com urgência (mas esse é assunto para outro papo).

Tal solidez de mercado pode ser atribuída a uma cascata de acontecimentos: o consumidor mais atento à sua saúde e seus impactos em um mundo fragilizado eventualmente também dedica mais tempo à busca de informação e novas combinações alimentares. Como esse consumidor não quer deixar de lado “os prazeres da mesa”, e empresas na vanguarda da inovação alimentar entenderam isso, a tecnologia entra com força e muda para sempre o insosso mundo plant-based. A partir da bioquímica, empresas como a Beyond Meat nos idos de 2012, começaram a entender como replicar textura, cor, sabor e aroma de alimentos animais apenas com ingredientes do reino vegetal.

E deu certo. Números não negam.

Os exemplos mais conhecidos, e que ganharam bastante destaque no ano passado são o da própria Beyond Meat, que teve o mais bem-sucedido IPO do ano (em duas semanas de oferta pública viu suas ações valorizarem 250%). E também o aporte de 300 milhões de dólares que recebeu, a também americana, Impossible Foods — levando-a a emplacar seus hambúrgueres como a opção a base de plantas do famoso Big Whopper da rede de fast food Burger King.

Por mais distante que esse mercado de fast food possa parecer do mercado de saudabilidade e bem-estar, foi um nicho que deu bastante visibilidade às novidades do mundo das proteínas alternativas (e elas não são poucas: o The Good Food Institute estima que só nos Estados Unidos, no ano de 2019, 457 milhões de dólares foram investidos em empresas plant-based através de rodadas de captação de fundos de Venture Capital).

Em estudos de caso e análises de mercado, muitos se perguntaram o porque dos hambúrgueres.

Nos Estados Unidos, 40 a 45% de toda a carne consumida é vendida moída (diferentemente do Brasil). Sendo os hambúrgueres uma parcela significativa desse volume de vendas, foi para viabilizar tais (então) projetos — e então prová-los factíveis — que empresas como a Impossible Foods focou esforços na carne moída e, consequentemente, no hambúrguer.

No mercado brasileiro a marca que ganhou bastante espaço e mídia foi a Fazenda Futuro. Com pouco menos de um ano de mercado a empresa já havia captado 8.5 milhões de dólares em rodadas de Venture Capital, estava para conquistar o mercado europeu, havia lançado sua versão 2.0 do hambúrguer, carne moída, almôndegas, e, mais recentemente anunciou sua linguiça vegetal. Outra marca que vem com força é a NotCo. Chilena que usa inteligência artificial como ponto de partida para pesquisa e desenvolvimento, a foodtech avaliada em 150 milhões de dólares, com bastante presença no mercado brasileiro, já anunciou que está prestes a lançar seu blend de hambúrguer.

As redes de fast food que não têm opções meatless em seus cardápios precisam correr para se atualizar. Já ficou “fora de moda” resistir à essa tendência que veio para ficar.

Mas como tudo que é inovador, desconhecido, e chega quebrando paradigmas, esses produtos aterrissaram em seus respectivos mercados acompanhados de uma série de críticas e reclamações. Entre elas, consumidores dizendo que esses produtos são “ultraprocessados, foram feitos com ingredientes ainda não-regulamentados, replicam um sistema de fabricação e logística de distribuição que já se provou ineficiente”, entre outros.

A turma da Green Kitchen, por sua vez, está inovando em seus meatless e nos contou que apesar de entrarem na categoria fast food, ainda não há marca nenhuma produzindo um produto “do zero” e tão natural (quanto possível) como eles.

O que nos resta saber é: será que essa onda “plant-fast-based-food” tornará esse mercado menos “junk”? Como será que devemos olhar para ele? O que devemos levar em consideração?

É isso que traremos no artigo colaborativo da próxima semana. Até lá!

 

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