Economia Circular dos Alimentos

A economia circular dos alimentos 

Como construir um Sistema Alimentar menos linear


Falar da nova economia circular para o plástico levantou a bandeira para retornarmos ao cerne da questão: os alimentos. Como podemos aplicar a economia circular à eles? Estudos projetam que até 2050, 80% dos alimentos serão consumidos em grandes centros — e parte intrínseca desse consumo deve ser entender como eles chegaram até a mesa do consumidor, como devem ser consumidos e como devem retornar ao ambiente natural de maneira que não continuemos degradando o meio ambiente com o descarte incorreto de resíduos, ou a perda de grande parte dos alimentos que acabam estragando nas mãos não só dos consumidores, mas principalmente dos varejistas e nas rotas entre colheita/produção e pontos de venda.

 

Quando falamos em Sistemas Alimentares, abordamos um complexo sistema de relações produtivas, logísticas, de consumo e de descarte dos alimentos. Até o presente momento, a grande maioria das cidades mundo afora se desenvolveram dentro de um conceito linear de produção de alimentos. Ou seja, extraindo recursos finitos, consumindo-os e descartando-os, e não se importando com os impactos, poluição e desperdício. Não por mal, mas por seguirem replicando modelos que foram implementados em tempos de colonização onde, como narrado no documentário Artifishal, "acreditava-se que o mundo natural era um grande depósito de commodities do qual eles [os colonizadores] eram obrigados a fazerem uso". 

 

O que acontece, contudo, é que as distâncias diminuíram por conta dos meios de transporte mais eficientes, os centros urbanos cresceram, e o neoconsumidor tem cada vez mais desejos a serem saciados — grande parte deles envolve comida e experiências os quais a procedência é desconhecida a olhos nus. Mesmo que o entendimento da importância de uma dieta nutricionalmente balanceada e saudável já seja bem disseminado (apesar de faltarem aparatos educacionais para que sua aplicação se pulverize nas mais diversas camadas sociais), poucos indivíduos percebem que mesmo fazendo escolhas mais saudáveis do ponto de vista da saúde, muitas dessas escolhas ainda podem, através de impactos socioambientais causados pela produção e gestão dos produtos e subprodutos dos alimentos, prejudicar — e muito — suas vidas. "Dentre os impactos prejudiciais desses métodos estão doenças causadas por poluição do ar, contaminação das águas, exposição à saúde e aumento da resistência antimicrobiana" gerados, em parte, por uso excessivo de fertilizantes e antibióticos em animais, cultivo intensivo de monoculturas, resíduos humanos não tratados, e emissões de CO2 geradas pelo longo ciclo da cadeia produtiva, cita o relatório Cidades e Economia Circular dos Alimentos, produzido pela Ellen MacArthur Foundation. 

A economia circular já vem sendo discutida e aplicada em diversos setores, inclusive no das embalagens. Ressignificar e reintroduzir plásticos, vidros e materiais na economia — como tubos de pasta de dentes, caixas tetra pak, cartões de crédito, entre outros, já é comum e se mostra extremamente eficaz do ponto de vista ambiental, social e econômico. 

Mas como fazer isso com os alimentos? 

O mesmo relatório citado acima elenca três principais fatores a serem considerados: 

  1. a compra de produtos cultivados de forma regenerativa e — preferencialmente — local (diminuindo assim os impactos promovidos por deslocamento, descarte de embalagens, perda de produtos que estragam no meio do processo); 
  2. desenvolvendo produtos que já olhem para um todo de forma mais saudável (validando, então, o trabalho dos designers de alimentos, que podem influenciar as massas e inserir no cotidiano do consumidor novas formas de se alimentar); 
  3. aproveitar os subprodutos como cascas, águas de cozimento, frutos que seriam descartados no processo de produção, entre outros (é o caso de desenvolvermos um mercado onde as indústrias podem colaborar na produção de novos produtos provenientes dos subprodutos, mesmo que não sejam comestíveis).

À exemplo, vejamos a aquafaba. Tão simples quanto a água do cozimento do grão de bico, ela substitui ovos em receitas veganas, podendo chegar à textura de um merengue e emulsificar alimentos como a maionese vegana. Mesmo o grão de bico sendo empregado em diversas culinárias que consumimos no Brasil, a aquafaba ainda é um produto difícil de ser encontrado em escala para produção industrial no mercado interno.  

Outro exemplo: numa rápida pesquisa pelo google encontramos a foodtech brasileira Feitosa Gourmet como ganhadora do Desafio da Economia Circular de Alimentos da Thought for Food junto ao Google Food Labs, do ano de 2019. 

O que a Feitosa faz? 

A marca desenvolve molhos como ketchup, molho de pimenta, geléia e até antepasto, todos derivados da banana. Em busca de valorizar um alimento local e que, muitas vezes, acaba sendo descartado antes do consumo, Fabio — fundador e chef da foodtech — trabalha com uma cooperativa de manejo agroecológico de bananicultores e transforma de 40% a 60% da produção desses cooperados, que seria descartada por imperfeições, em produtos prontos para consumo. Mesmo a casca do fruto é utilizada por Feitosa no desenvolvimento de produtos como caponata.

Fora do Brasil, já existe leite vegetal sendo produzido a partir da cevada. A marca Take Two agrega valor ao subproduto da produção de cervejas ao rejuvenescer o grão e transformá-lo numa bebida nutritiva para consumo humano. 

Essas são apenas três ilustrações de um oceano de oportunidades que pode emergir de uma economia circular e criativa. Criatividade e inovação, aliás, são sem sombra de dúvidas dois fatores que contribuem para a construção de um sistema alimentar menos linear. Para tanto, otimizar a produção e o ciclo de vida de um único produto não é suficiente. Comida está conectada à água, energia, infraestrutura, transporte, e tantas outras tecnologias. Por isso, examinar o uso e fluxo de energia e materiais ao longo da cadeia se faz tão necessário quanto a mudança de comportamento e mentalidade dentro do sistema como um todo. 

Os conceitos de upcycling, economia circular do alimento e sistemas alimentares sustentáveis ainda são muito novos, pouco explorados e pouco disseminados no Brasil. Por isso, como trouxemos no nosso último webinar, falar de educação empreendedora, processos criativos, e design thinking dentro das universidades, pólos de inovação, e grandes corporações não pode ser um fator secundário ao retorno financeiro. 

Afinal, como mencionamos em um post recente: "aquele que se importa, ganha".

 

 

 

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