Rotulagem de alimentos e seus impactos

Rotulagem de alimentos e seus impactos 

O peso da indústria na tomada de decisão do consumidor

28 de setembro de 2020 - por Juliana Bechara Parente

Confesso que dentre todas as reflexões que levantamos desde que começamos essa parceria co-criativa e colaborativa com a Food Ventures, essa sobre rotulagem e saúde me trouxe uma sensação que há tempos não sentia: o famoso writer's block. Não que eu precise ser uma super autora ou filósofa para falar de um tema como esse: rotulagem de alimentos, indústria e saúde, mas o repertório pessoal me deixou um tanto quanto confusa. Afinal, eu não sou nenhuma entendida do assunto. Eu fico pensando no cara que se curou de um câncer depois que adotou uma alimentação totalmente livre de processadores, açúcares e refinados, fico pensando na contaminação cruzada presente em plantas de produção, fico pensando no diabético que come um alimento vegano acreditando que aquele também é um alimento baixo em açúcares, e assim vou, sem conseguir ligar A com B por um bom tempo.

 

Nesse meio tempo a querida Cintia Miyaji, pesquisadora e grande apoiadora do movimento pela pesca sustentável me mandou um combo de artigos acadêmicos e estudos que falam dos mais diversos cenários alimentares. Um deles intitulado "Consumo Alimentar de Ultraprocessados da Primeira Infância ao Envelhecimento em Teófilo Otoni-MG". Claro que eu fui tentar quebrar os monstros que não me deixavam evoluir no tema e as ideias foram clareando.

 

Na introdução logo li: "os padrões de alimentação da população brasileira estão sofrendo mudanças que implicam na substituição de alimentos in natura ou minimamente processados de origem vegetal, podendo levar a desarmonia de nutrientes e excesso de calorias. O crescimento mundial do consumo de alimentos industrializados, presente inclusive no processo de introdução de alimentos, caracteriza o novo ambiente obesogênico". Os autores seguiram explicando o que vem a ser os ultraprocessados: "alimentos com alto grau de processamento e maior tempo de conservação, acessibilidade e palatabilidade, que geralmente obtém a adição de açúcar e sal, aditivos químicos, vitaminas e minerais", entre outras especificações. Dito isso, chegamos no ponto inicial da nossa reflexão que, como bem pontua o artigo escrito pela Food Ventures: "o acesso à informação mudou. E nossos hábitos também"

 

Esse problema é global e deve ser tratado com urgência.

 

O Augusto levantou a questão das alergias alimentares como ponto de partida para repensarmos a legislação brasileira para rotulagem. Contudo, e como aponta o trecho citado acima, o problema é de saúde pública. O acesso ao alimento industrializado e barato mudou. Com ele, mudaram as ações de marketing que regem a indústria. E grande parte da população que tem pouco acesso à informação nada mais vê do que uma embalagem bonita, imagens apetitosas e famílias de margarina. De certa maneira, as certificações que visam ajudar também chegam a dificultar um pouco. Os alérgicos precisam estar atentos e precisam confiar na indústria, e se a indústria falhar, ele facilmente saberá de onde veio o problema. Já o obeso, o hipertenso, o diabético, o paciente oncológico (para nomeaer alguns), eles podem ter mais dificuldade de mapear a raíz do problema se forem pessoas menos atentas a ingredientes, composição nutricional ou confiarem demais nas tendências do momento "gluten free", "vegano", "light", "orgânico", entre outros.

 

 Aliás, fica a pergunta: podemos confiar nas tabelas nutricionais dos alimentos industrializados?! Mais: só porque o alimento é vegano ele é baixo em açúcares, gorduras e minimamente processados?!

 

Pois é, parece que ainda há muita confusão nas prateleiras dos supermercados. Times de marketing são muito bem remunerados para venderem determinados produtos de determinadas marcas — mas eles nem sempre são exatamente sinceros. Veja esse exemplo: em 2014 uma mulher chamada Kate Cooper rodou a internet. No vídeo que a descrevia como Consultora de Marketing para a Indústria de Alimentos, ela conta os segredos do marketing nos alimentos. Acontece que a Kate é uma atriz falando para uma platéia real. Visivelmente aqueles que a assistiam ficaram boquiabertos quando as estratégias da grande indústria para rotular e vender alimentos — e ainda introduzir novas formas de consumo — foram explicitadas por ela. 

 

Trazendo essa "fake-fala" para o ano de 2020, facilmente associamos ela ao novo documentário do Netflix: o dilema das redes. Que fique claro que os serviços e produtos de cada um são distintos, mas estão totalmente interligados. Afinal, o consumidor final das grandes empresas alimentícias — as quais acabam ditando moda e tendência — é o mesmo que gera renda para as grandes corporações como facebook, instagram, etc. Minha consideração é: vivemos numa rede de informação e desinformação a qual acreditamos não fazer parte. Mas se não formos atrás de dados concretos e sairmos da nossa bolha algorítmica, aprenderemos apenas quando adoecermos. 

 

Vou trazer uma pitada de pimenta aqui ao citar a autora e professora americana Marion Nestle. No seu livro Uma Verdade Indigesta ela ressalta que é uma especialidade da grande indústria criar produtos comestíveis com ingredientes baratos, aromatizantes, estabilizantes, etc. etc. - e os venderem como saudáveis. Segundo ela, grandes empresas patrocinam estudos sobre seus produtos e depois as divulgam como se fossem estudos independentes. Por isso, muita cautela ao ler tudo o que recebe. Verifique fontes e identifique quem pagou para aquela publicação sair do papel. Segundo a autora, tais estudos deveriam ser rotulados como marketing e não ciência.

 

Eu não quero dizer aqui que toda e qualquer marca disponível nas gôndolas dos supermercados seguem essa premissa. Eu quero abrir espaço para refletir até onde elas influenciam as vendas de pequenos produtores e o surgimento de novas marcas, bem como as decisões de consumidores individuais, e os alimentos escolhidos pelo food service para alimentar clientes mundo afora. 

 

"Por muitos anos acreditei que o problema crônico de intestino preso, comum a muitas mulheres, pudesse ser solucionado tomando diariamente uma determinada marca de iogurte" cita Marion — explicitando de maneira muito clara porque ficamos tão confusos e como essa confusão pode extrapolar as barreiras das alergias e chegar ao campo das restrições por crenças, modismos e pouco embasamento.

 

Mudanças significativas vêm acontecendo. Essa semana mesmo eu me deparei com o anúncio do novo Nescau. Aquela bebida, cheia de açúcares, com pouca entrega nutricional e muito apelo de mercado, agora ganhou uma versão orgânica com apenas três ingredientes: leite orgânico, cacau e açúcar demerara. Novidade como essa mostra que há sim uma nova percepção dentro da indústria, mas como a legislação pode ajudar de maneira que mudanças como essa aconteçam numa velocidade muito superior à que temos hoje? 

 

Muitas são as perguntas para as quais não tenho as respostas. Está mais fácil construir um estudo em cima do tema do que escrever um artigo de opinião. Por isso vamos ouvir especialistas da área e entenderemos um pouco mais qual o estado da indústria da rotulagem hoje.

 

Vem com a gente? 

 

Dia 28 de setembro às 20hs00. Cecilia Cury da campanha Põe no Rótulo e Aline Leitão da marca de produtos sem glúten Pão de Liz vão nos deixar mais por dentro de todos os movimentos, dores e amores dessa jornada.

 

 

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